“Se alguém foi deputada estadual ou deputada federal e não foi reeleita, ela vai tentar se reinserir num cargo mais baixo do que ocupava. A disputa é grande, mas a desistência é bem menor, porque são pessoas que já fizeram uma carreira na política”, diz.
A tentativa de disputar a prefeitura foi parecida entre os vereadores: 17% das mulheres e 18% dos homens tentaram o cargo majoritário. O sucesso, por sua vez, foi maior para eles: 8% dos homens que tentaram venceram, ante 7% das mulheres.
O Brasil adotou as primeiras cotas de gênero em 1995, e os partidos hoje são obrigados por lei a reservar 30% das candidaturas para mulheres. Para Thomé, essa regra resolveu o problema da entrada, mas não o da permanência.
“Não vejo outra forma de aumentar o número de mulheres eleitas no Brasil que não seja criando uma legislação de reserva de vagas. A vaga não vai estar mais só na chapa, o partido vai ter que ocupar algumas das suas cadeiras, proporcionalmente, com mulheres”, diz a cientista política.
A vereadora Aladilce Souza (PC do B), de Salvador, ilustra parte desse padrão. Eleita em 2024, está em seu quinto mandato na Câmara Municipal, após não conseguir se reeleger em 2020.
Segundo ela, uma candidatura masculina lançada pelo próprio PC do B, sem chances reais de vitória, dividiu parte dos votos que poderiam ter garantido sua reeleição à época. O candidato não foi eleito, diz.
Professora da Universidade Federal da Bahia, ela conta que cogitou desistir da vida política nos quatro anos em que esteve fora da Câmara. “Cheguei a pensar, mas me recompus. No mês seguinte, já estava dando aulas de novo. Não é minha profissão ser vereadora, eu sou professora. Isso me ajudou”, diz.
Também passou a presidir o diretório municipal do PC do B em Salvador nesse intervalo, conta. Voltou a concorrer em 2024, foi eleita, e retomou o mandato na legislatura atual.
Souza afirma ter percebido diferenças no tratamento dado a vereadoras e vereadores dentro da Câmara ao longo da carreira. Ela lembra de um episódio em que um pedido de palavra foi negado a ela e concedido, na sequência, a um homem do mesmo partido. Em outra situação, viu uma colega ser questionada com ironia por um vereador durante uma sessão. “‘Está nervosa, minha filha?'”, ele disse.
A vereadora relata ser difícil a disputa por vagas em comissões consideradas estratégicas, como a de Constituição e Justiça. “As mulheres não podem ficar relegadas à comissão da mulher, à assistência social, como eles sempre acham [que deve ser]”, afirma.
Para Thomé, esse tipo de disputa cotidiana ajuda a explicar por que a permanência na política é mais difícil para mulheres. “Não podemos tolerar Câmaras de Vereadores sem nenhuma mulher. Todas deveriam ter, no mínimo, duas cadeiras ocupadas por mulheres, porque uma Câmara sem nenhuma mulher significa que a voz desse grupo, que é maioria no Brasil, não está sendo escutada”, afirma.Souza hoje é pré-candidata a suplente de senadora pelo PC do B, na chapa governista baiana para outubro de 2026. “Não se admite um projeto que se queira democrático sem a presença da mulher”, diz. Segundo ela, o objetivo é usar o espaço para debater pautas feministas dentro do próprio grupo político.











