DE AURELINO LEAL E DAS ÁGUAS DO RIO DAS CONTAS À CANOAGEM MUNDIAL (Por Wesley Faustino (*)
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  • 10/10/2026 
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A compreensão do processo de desenvolvimento da canoagem brasileira exige que se observe não apenas a trajetória dos atletas que alcançaram projeção internacional, mas também a formação dos técnicos que participaram da construção desse ciclo esportivo. Nesse contexto, a história de Pedro Alves de Sena Junior, o Pedro Sena, constitui um dos exemplos da capacidade de expansão da escola de canoagem surgida no sul da Bahia. Natural de Aurelino Leal, ele iniciou sua relação com a modalidade nas águas do Rio de Contas e, décadas depois, levaria o conhecimento adquirido naquele ambiente para diferentes países e centros internacionais de treinamento.

Crédito: Divulgação

Sua aproximação com o esporte ocorreu ainda jovem, depois de assistir a uma competição. Naquele período, quando a canoagem começava a ampliar sua presença nas cidades banhadas pelo Rio de Contas, Pedro encontrou em Jefferson Lacerda uma das figuras determinantes de sua formação. Aurelino Leal não possuía estrutura consolidada para a prática da modalidade, razão pela qual o jovem passou a treinar com a equipe de Ubaitaba, convivendo com atletas mais experientes e participando de um ambiente que se tornaria fundamental para sua formação.

Pedro era franzino e ainda estava distante dos resultados que marcariam sua trajetória. Jefferson, entretanto, identificou potencial naquele jovem e decidiu incentivá-lo. O apoio ultrapassou a orientação técnica. Segundo Pedro, Lacerda procurava garantir equipamentos adequados, auxiliava nas condições para o treinamento em academia e chegou a emprestar seus próprios materiais de fisioterapia para que ele pudesse tratar lesões decorrentes da prática esportiva.

A experiência daqueles primeiros anos ensinou a Pedro que a canoagem exigia mais do que habilidade para conduzir uma embarcação. Disciplina, preparação, responsabilidade e persistência passaram a fazer parte de uma formação que posteriormente seria incorporada à sua própria concepção de treinamento. “Jefferson enxergava alguma coisa em mim que talvez eu mesmo ainda não conseguisse enxergar”, recorda.

Crédito: Divulgação

A trajetória de Pedro ganharia outra dimensão em 2005. Após o trabalho desenvolvido no Centro Náutico de São Vicente, em São Paulo, foi convidado para treinar a Seleção Brasileira de Canoa. Começava um período importante para a consolidação da canoa olímpica brasileira e para o surgimento de uma geração que passaria a conquistar resultados internacionais de maior expressão.

Em 2006, Nivalter Santos conquistou a medalha de ouro nos Jogos Sul-Americanos. No ano seguinte, nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, vieram novas medalhas. Em 2008, Nivalter conquistou a classificação olímpica. Nos anos seguintes, atletas como Luciana Costa, Camila Lima, Erlon de Souza, Ronilson Matias, Valdenice Conceição e Caio Ribeiro alcançaram resultados em competições internacionais durante períodos em que Pedro esteve ligado ao trabalho técnico.

Outro marco ocorreu em 2011, quando Isaquias Queiroz conquistou o título mundial júnior. Aquele resultado integrava um processo mais amplo de crescimento da canoagem brasileira e revelava a força de uma geração formada a partir do trabalho desenvolvido durante anos em diferentes núcleos do país, entre eles os existentes no sul da Bahia.

Crédito: Divulgação

A experiência acumulada no Brasil levou Pedro Sena ao cenário internacional. Em 2016, iniciou seu trabalho no Japão, onde conquistou títulos nacionais e asiáticos e participou dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Posteriormente, trabalhou no Irã, acumulando resultados em competições asiáticas e mundiais. Em 2024, assumiu trabalho no Chile, participou da campanha que conquistou vaga olímpica e esteve nos Jogos de Paris.

Após a Olimpíada de Paris, Pedro seguiu para a China. Em 2025, conquistou títulos nacionais e mundial e, em 2026, segundo seu currículo profissional, atletas sob sua orientação conquistaram nove medalhas no Campeonato Mundial realizado no Canadá, sendo quatro de ouro, três de prata e duas de bronze.

O balanço de sua carreira registra mais de 255 medalhas internacionais conquistadas por atletas e equipes durante trabalhos realizados em cinco países. Os números ajudam a dimensionar uma trajetória profissional que atravessou continentes, culturas esportivas e diferentes metodologias de treinamento.

Apesar da dimensão internacional alcançada, Pedro preserva na memória o período de formação vivido às margens do Rio de Contas. Ao recordar Jefferson Lacerda, retorna ao momento em que ainda não existiam títulos mundiais, Jogos Olímpicos ou uma carreira construída em diferentes países.

“Os ensinamentos do professor Lacerda levei comigo para a vida. Muito do que aprendi naquele começo continuou presente na minha caminhada como atleta e, depois, como treinador.”

A trajetória de Pedro Sena permite, assim, estabelecer uma ligação entre dois momentos da história da canoagem brasileira: o período pioneiro, marcado por estruturas limitadas e pelo trabalho de homens que formavam atletas praticamente de maneira artesanal, e a fase de internacionalização de seus conhecimentos e profissionais.

Entre esses dois tempos permanece o Rio de Contas. Foi em suas águas que um jovem de Aurelino Leal começou a aprender os fundamentos de um esporte que, anos mais tarde, o levaria a trabalhar em cinco países e a participar de diferentes ciclos olímpicos. Uma trajetória que ajuda a compreender como a experiência construída no interior da Bahia ultrapassou suas fronteiras e encontrou espaço entre algumas das principais escolas da canoagem mundial.

(*)-Escritor, historiador, pesquisador e biógrafo de Jefferson Lacerda, atleta olímpico em 1992 e primeiro canoísta do Norte e Nordeste do Brasil em uma Olimpíada — Barcelona, Espanha.