AOS 80 ANOS, TOM ZÉ LANÇA DISCO SOBRE SEXO E FAZ SHOW NA CONCHA
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  • 26/10/2016 
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Daniel Oliveira

Tom Zé vai fazer o show do novo álbum em dezembro, na Concha

Tom Zé vai fazer o show do novo álbum em dezembro, na Concha

Com 16 anos, em Irará, Tom Zé descobriu que a mãe e o pai tinham relações sexuais. Ou melhor, “trepavam”. Foram os empregados da sua casa, “o povo do sertão”, os responsáveis por esclarecer o então cabuloso assunto. Morando em São Paulo há cerca de cinco décadas “por uma questão de sobrevivência”, as lembranças do interior saltam do inconsciente do cantor e compositor baiano.

Ele vai e vem no tempo e espaço com a facilidade e sincronicidade de uma criança, ainda sem esses referenciais tão determinantes. Isso aos 80 anos, completados neste mês de outubro.  “Trouxe coisas da infância, da minha educação, episódios da cidade e  também leituras”, fala o músico do álbum Canções Eróticas de Ninar – Urgência Didática, lançado recentemente  por meio do selo Circus. O show chega a Salvador no dia 9 de dezembro, às 19h, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

O disco tem 13 faixas em que Tom Zé aborda erotismo com suavidade, suingue “sobe ni mim” e, principalmente, respeito.  “Todo assunto de sexo já vem viciado, contendo dentro de si a humilhação e degradação da mulher. Essa foi a maior dificuldade”, assume o artista, que contou com a ajuda e o crivo de Neusa, esposa, Tania, produtora, e outras amigas.

O músico canta a faixa Dedo no show de lançamento do disco, em São Paulo

“Pensei até em não fazer, deu um pega pra capar danado. Mas Tania e Neusa lembraram da  reportagem da revista de Joyce Pascowitch chamada Orgasmo Terceirizado, o mesmo nome de uma das músicas. A diretora escolheu uma repórter e mandou para uma casa de massagem. Ela descreve tintim por tintim como foi.  Salvou o disco, porque já ia desistir”, conta.

Som libidinoso

Tom Zé tem o costume de criar obras temáticas desde 1976, ano em que chegou ao mundo   Estudando o Samba. Dessa vez, a raiz do trabalho, além das vivências e inspirações, foi o show quase-homônimo, em 2014, na boate Bourbon. “Ali era Canções Eróticas para Ninar, ao invés de ‘de Ninar‘. Já tinha uma parte pronta, inclusive toquei Dedo em versão antiga”. Esta, aliás, acabou sendo  uma das canções mais contestadas no processo de  feitura do álbum.

“É a mais grossa, só entramos em acordo porque foram meninas, as  minhas vizinhas, que fizeram as  rimas com dedos”. Uma das bem-humoradas estrofes: “Sendo moça acanhada / unha bem cortada/ Se ela tem medo de pecado / dedo batizado / moça que tem passarela fina / dedo com vaselina”. E segue listando e indicando.

Os arranjos finais foram feitos pelo produtor Paulo Lepetit. “Um craque”, segundo Tom Zé. De fato, os movimentos inesperados, sejam na levada, melodia ou harmonia, alteram o procedimento da música e, quando necessário, potencializam o clima erótico. Instrumentos exóticos, como o buzinório, hertzé e berimblanck, desenvolvidos por Marcelo Blanck, contribuem na sonoridade singular e libidinosa do trabalho.

A faixa de abertura, Sexo, tem refrão marcante com a palavra do título. “Fiz para essas moças sentadas no trabalho cantarem para provocar o rapaz quando passar: ‘sexo, sexo, oh sexo, sexo’”, diz, rindo.

Já USP x GV transpõe para o ambiente universitário as richas das ruas de Irará quando chegava um sujeito novo na área. “Praticamente não tinha rapaz. Faltava trabalho e naquele tempo moça não trabalhava. Se alguém chegasse e namorasse com a moça da rua de baixo, a rua de cima ficava revoltada e fazia umas poesias”, explica.

Praticante de tai chi chuan, Tom Zé é atento aos sinais do próprio corpo. Faz exercícios para fortalecer o que está precisando. Além disso, é  um tanto  macrobiótico. “Como frango ou peixe todo dia, mas sigo direitinho nos outros alimentos, arroz com gersal, uma folhinha de coentro ou salsa para equilibrar o yin e o yang. E como porque gosto, em todo lugar do mundo é a mesma coisa. Estou ficando sempre mais moço”.

Trabalho com o cognitivo

O trabalho de composição é cotidiano. “Não sou aquele cara que chega em casa às 17 horas, toma um uísque e senta para fazer uma música que o Brasil ou o mundo todo vai se emocionar. Sempre faço uma, duas, três ou mais vezes, jogo fora ou guardo, vou lá pegar anos depois. É assim. E para mim as músicas são do cognitivo, não do contemplativo”, afirma.

A ligação do cantor e compositor com Salvador, a cidade da Bahia, permanece intensa. Ele relembra os tempos da Escola de Música, no  início dos 1960, quando estudou violoncelo e foi aluno de Widmer e Koellreutter. “Aquilo ali era uma pescaria de almas”.