OS CAMINHONEIROS E NÓS (Por: José Medrado (*)
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  • 28/05/2018 
  • redacao

Estamos vendo, ainda que como menos força, a paralisação dos caminhoneiros gerando dificuldades de todas as formas, mas ainda há uma espécie de liga entre eles e a população, em geral. O que determinaria esta empatia (capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação)? Já que o Brasil se encontra tão dividido, em um tal de você é errado, eu sou o certo.

De imediato, sabemos que os símbolos evidenciam lados dos times, digamos assim, e o Brasil consagrou dois “padrões futebolísticos” para os seus lados: a cor vermelha e a amarela em camisas, bandeiras, estandartes…os caminhoneiros não estavam com “cor padrão” alguma, logo estavam neutros – mais ou menos, claro. E se estavam “neutros” era uma luta de todos.

De outro lado, havia, inegavelmente, uma necessidade de catarse (termo de origem filosófica com o significado de limpeza ou purificação pessoal) nacional generalizada, em face de tudo que vemos por aí, mas nem sempre gritamos, bradamos porque isto implicaria em irmos “de encontro” à torcida que pertencemos: é uma mala aqui correndo pela rua, são caixas ali cheias de dinheiro, é o desemprego, são líderes de uns e outros sendo lançados à lama da quebra da imagem…porém essas questões por si mesmas não podiam ser expostas, pois faríamos uma espécie de confissão de equívocos, muitas de uma vida inteira, e vulneraria a nós mesmos, sabe aquela questão bem baiana de “não dar ousadia”? Passa por aí.  Há ideias e sentimentos que só surgem ou se transformam em ações nos indivíduos ligados numa massa.

Esse movimento, assim, fez deixarmos a as conveniências de lado, e realmente começamos a expressar toda a enxurrada emocional que guardávamos no interior. Se a multidão se organiza em resposta a emoções partilhadas, o público organiza-se em face de um tema, disse alguém. Então, circulou “somos todos caminhoneiros”. Muitas pessoas têm essa necessidade de se fazerem ouvidas, ainda que nem percebam isso. Nesse sentido, a internet e o surgimento das redes sociais acabaram contribuindo para que milhões e milhões de anônimos pudessem sentir a sensação de que estão sendo ouvidos.

Infelizmente, no entanto, se criou uma espécie de interesse seletivo e sazonal por parte do povo brasileiro, onde a cobrança de ética e cidadania só vale para o que não me afeta. Bem assim, pois até nesses momentos de crise vemos os “espertinhos”, por todos os lados, querendo levar vantagem, ainda que fosse furando a fila nos postos de gasolina.

* José Medrado é líder espírita, fundador da Cidade da Luz, palestrante espírita e mestre em Família pela UCSal.