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- 04/09/2026
- redacao
O que Brasília ofereceu ao país nesta semana não foi apenas uma divergência jurídica, mas a exposição pública de uma crise que alcançou o coração da República. O Supremo Tribunal Federal (STF), instituição encarregada de proteger a Constituição, passou a protagonizar um confronto entre ministros, acompanhado de suspeitas, acusações recíprocas e decisões que lançam dúvidas sobre a necessária imparcialidade da Corte.
A crise ganhou força quando André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material faz referências a Alexandre de Moraes e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. As mensagens, por si sós, não constituem prova definitiva de irregularidade, e Moraes contesta a interpretação segundo a qual seria o destinatário de parte delas. Ainda assim, a gravidade das informações exige apuração independente, transparente e submetida ao devido processo legal.
O episódio tornou-se ainda mais preocupante quando Moraes, utilizando o inquérito das fake news, pediu providências contra Mendonça por possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Mendonça, por sua vez, é acusado de ter conduzido a investigação de maneira seletiva. Nesta quinta-feira, 3 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, retirou o pedido contra Mendonça daquele inquérito, abriu procedimento separado e determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos em cinco dias.
Na primeira sessão após as revelações, o plenário evitou discutir publicamente o caso. O silêncio pode ter sido uma tentativa de baixar a temperatura, mas também ampliou a impressão de que a Corte ainda procura uma saída interna para uma crise que já pertence à sociedade. A cena de ministros sorrindo nos corredores, registrada em meio à turbulência, pode até não provar indiferença. Contudo, a posterior restrição do acesso de fotógrafos ao local produziu péssima mensagem: diante do constrangimento público, protege-se a imagem da Corte, quando o que a sociedade espera é transparência.
A Ordem dos Advogados do Brasil reconheceu a existência de uma crise e defendeu apuração rigorosa e isenta. É exatamente disso que o país necessita. Não cabe antecipar culpas, mas também não se pode permitir que ministros investiguem adversários internos, julguem atos que os envolvem ou transformem instrumentos excepcionais em escudos pessoais. Quando a mais alta Corte parece dividida entre facções e suspeitas de proteção recíproca, a confiança pública naufraga.
Cabe ao STF restabelecer limites, ao Ministério Público agir com independência e ao Senado exercer, sem conveniência partidária, sua responsabilidade constitucional. Nenhuma democracia sobrevive quando seus guardiões exigem transparência de todos, menos de si mesmos.
(*) Escritor, historiador e pesquisador. Atua na preservação da memória política, cultural, esportiva e institucional de Ubatã e do sul da Bahia. Ex-vice-prefeito de Ubatã, é especialista em Gestão Pública Municipal e Gestão Ambiental, tendo exercido funções de diretor-geral, chefe de gabinete e secretário em diferentes órgãos das administrações públicas municipal — em Ubatã e Salvador —, estadual e federal. Dedica-se à análise da política municipal sob uma perspectiva histórica, documental e institucional.
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