AS PRELIMINARES ( *Por Eduardo Loyola)
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  • 13/08/2015 
  • Redação
Eduardo Alcântara de Andrade

Eduardo Alcântara de Andrade

Argemiro e Odilon eram compadres de longa data e de quinze em quinze dias,  sempre às sextas-feiras colocavam o papo em dia, quando Odilon,  vindo do Cachorro D’Água para Ubaitaba, trazia não só panacuns de saborosas tangerinas e laranjas d’água para a comadre como também, notícias  da birração das roças, da safra vindoura e do tempo nem sempre propício ao carrego dos cacaueiros.

Discutiam sobre o preço da arroba, sempre abaixo do desejado, do penhor agrícola e reclamavam do custo do transporte dos sacos de cacau em canoas ou em lombo de burros nas tropas que desciam pela margem do Rio de Contas até Ubaitaba.

Mas falavam também de amenidades e nessa sexta-feira em particular Argemiro notou o compadre meio cabisbaixo e depois de arrodeios por outros assuntos finalmente Odilon confessou reservadamente o que lhe atormentava.

– Compadre meu casamento com Arlinda vai de mal a pior, ando desanimado quase não tenho vontade de trabalhar, quando de noite procuro ela na cama,  tem sempre uma desculpa. Uma hora é dor de cabeça, outra hora é porque tem que acordar cedo e por aí vai.

Argemiro pensou um pouco e com a intenção de levantar o astral do amigo, resolveu pilheriar com ele e aconselhou-o ao pé do ouvido:

– Isso que tá acontecendo é resultado da rotina, você compadre, tem que ser mais carinhoso, mais criativo, a mulher hoje não quer ser tratada como uma novilha que o touro sobe desce e pronto. Tem que começar com as preliminares, disse escondendo um sorriso irônico para um Odilon de olhos arregalados com um misto de vergonha e curiosidade.

– Aonde o compadre quer chegar? Perguntou com a voz tremula. Preliminar que eu sei é a partida antes do jogo principal de futebol lá no campo em Piraúna.

– Pois é compadre, é parecido só que melhor. Você vai descendo o “gramado” com muito tato até a zona do agrião, aí quando tiver cara a cara você não chuta a bola em gol, faz com muito carinho o que os especialistas chamam de sexo oral.

Odilon não estava acreditando que um homem sério como o compadre tava lhe sugerindo aquilo e não foi nem uma nem duas vezes que foi a janela cuspir devido à náusea que aquela imagem lhe causava. Quando Argemiro, que tinha ido ao sanitário voltou à sala, só encontrou D. Anita sua mulher, preocupada com a saída em disparada do compadre quase sem se despedir dela.

– Eu fiz uma brincadeira com o ele e já ia confessar. Disse Argemiro preocupado.

Só que pra Odilon aquilo foi motivo de muita confusão para sua cabeça conservadora e montado na mula de volta à fazenda  não esquecia a conversa de Argemiro. Atravessou calado o Oricó na balsa de Waldemar e tomou mesmo sem vontade duas pingas no bar de Justino. Quase não respondeu ao aceno de Mane Lourenço na outra margem do rio e nem parou pro café no Banco na casa de Manezinho. Tinha saído de Ubaitaba tão escarreirado que esqueceu até de fazer a feira.Teve que parar no Armazém de Nelson para não chegar em casa de mãos vazias.

Passaram-se quase dois meses e Argemiro já admitia que D. Anita tinha razão quando afirmava que Odilon havia saído zangado embora os meses de junho e julho tenham chovido tanto que talvez  impossibilitaram  o compadre de voltar à cidade.

Eles quase não acreditaram quando os dois chegaram em sua casa. Odilon com aquele jeitão dele, embora surpreendentemente carregasse uma fisionomia mais tranquila. A antes discreta e contida comadre não!. Ela atravessou a sala em cima de um salto alto, saia mais curta do que o normal, uma flor de graxa amarela presa ao cabelo com aquele olhar que traduzia felicidade. Era outra pessoa.

Nesse instante era Argemiro que não se continha de curiosidade e quase rebocou o amigo para o quintal indagando-o sobre o que tinha acontecido. Odilon fez ares de mistério e disse que antes ia tomar um cafezinho mas o compadre voou nele obrigando-o a contar imediatamente.

– Bem compadre não vou negar que eu saí daqui naquele dia meio confuso e levei bem uma semana pensando no que o compadre sugeriu, mas finalmente resolvi encarar o problema. Um momento que eu vou lá fora fumar um cigarrinho!

-Não criatura, fume aqui mesmo mas me conte. Gritou Argemiro nervoso, segurando-o pelo braço.

-Numa noite, por coincidência noite de lua cheia, aproveitei e fui me encostando em Arlinda na cama e antes que ela desse qualquer desculpa, iniciei as tais preliminares como o compadre ensinou. Fui descendo devagar até ficar de cara com a “aranha”, tive ânsia de vômito umas três vezes. A “bicha” tinha um almíscar de matar mas, pra  acabar com a tal rotina enfrentei o sacrifício. Arlinda perguntava desconfiada, aonde eu tinha aprendido aquela coisa e eu, pra evitar confusão, tinha pensado em desistir quando senti suas duas pernas prenderem minha cabeça.

– Se você sair daí eu lhe mato. Disse ela com os olhos brilhando como dois vaga-lumes.

Argemiro estava paralisado ao perceber aonde tinha chegado com sua brincadeira e se dirigiu quase se desculpando a Odilon.

– Mas aí compadre o casamento melhorou?

– Olha compadre, melhorar melhorou, o problema é que a mulher ficou viciada. Toda vez agora que a gente vai namorar e eu vou seguindo os velhos costumes ela empurra minha cabeça e apontando com o dedo lá pra baixo, ordena autoritária:

-Primeiro!!!

(*)-Arquiteto e empresário em Ubaitaba-BA.


  1. jorge Loyola disse:

    Muito bom meu irmão, mas acho que faltou o complemento final….o fio da meada…..

  2. elisio disse:

    esse e outros tem muitas histórias para ser contada forte candidato