DELÍRIO ( *) Por Eduardo Loyola)
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  • 24/02/2018 
  • redacao

A mistura de mar e rio, de areia branca e coqueiral,de peixe e gavião,de jibóia e carangueijo fazem de Algodões o lugar ideal para contemplação e deleite e a única atitude que podemos ter é de reverência à sua natureza exuberante.Pois todas essas características nos levam, às vezes ,a não perceber a linha tênue que separa a realidade da fantasia tamanho é seu poder de sedução.

A história que lhes conto a partir de agora, talvez seja um exemplo disso.

Mês de janeiro de 1996, aniversário na segunda feira de um irmão, antecipado para sábado por motivos óbvios,numa noite que a lua cheia ofuscava qualquer luz concorrente e os petiscos e moquecas variadas davam o suporte necessário para maior consumo da cervejinha gelada. Noite perfeita com amigos e familiares,comemoramos até quase o amanhecer do domingo.

À tarde todos retornaram à cidade,eu resolvi ficar para resolver pendências da reforma da casa.Agora sózinho na varanda,ao cair da tarde,mesmo com uma sensação de sonolência ocasionada pela bebida não pude deixar de observar no mar, em frente à casa, uma pessoa que se divertia solitária no quebrar das ondas.Percebi logo que era uma mulher e o sol dourava mais os seus cabelos loiros.Me diverti com aquela cena durante bons minutos quando de repente notei que algo acontecera e um grito alto de dor confirmou minha suspeita.Corri até ela e uma caravela tinha deixado uma queimadura tão grande em sua perna que demorei para perceber incrédulo a pessoa que estava diante de mim.

Olhei desconfiado para os lados sem acreditar como era possivel ela estar alí naquela praia deserta sem nenhuma companhia. Mas o sofrimento em seu rosto me trouxe à realidade e mesmo com a diferença de idioma,consegui convencê-la a ir até minha casa para cuidar da queimadura.

Chamei imediatamente D. Lourdes,a mulher de Zé o caseiro,que conhecia alguns remédios naturais além de ser uma excelente rezadeira.Quando ela viu a moça sofrendo naquela lingua estranha,mesmo sem reconhecê-la,consolou-a tratando-a de Gringa como se isso lhe desse o direito de não precisar entendê-la.E com suas ervas fêz um unguento que aliviou a dor como mágica.A simplicidade e o carinho de D.Lourdes conquistaram completamente a visita ilustre e observando afastado vi que ela já sorria aparentemente à vontade.

Eu estava tão hipnotizado com aquela presença na minha casa que nem notei a aproximação de dois seguranças que assustavam apenas pela estatura e senti que o sonho acabava ali.Deveriam ter vindo buscá-la mas ela se antecipou , correu até êles e dispensou-os para a minha alegria.

Lembrei da pousada na ponta da enseada que sempre recebe essas personalidades estrangeiras que preferem o isolamento e a ausencia de celulares e energia.Certamente ela estava hospedada

lá, incógnita.

A essa altura as coisas estavam calmas,principalmente depois que D.Lourdes serviu-nos generosas caipirinhas que a visitante confessou adorar.Era uma mulher atraente de uns trinta e sete anos,de corpo e rosto conhecidos no mundo inteiro.Era tambem famosa pelo seu temperamento forte embora nesse instante ela estava ali na minha sala dançando completamente à vontade.Algodões faz milagres.

Tomamos muitas caipirinhas,no som tocava música brasileira e ela ficou particularmente encantada com a “batida” da música Odara de Caetano.

Quase não trocávamos palavras.Era como um pacto de silêncio, sem nomes ou perguntas, que de repente pudesse por fim aqueles momentos incríveis.

A noite foi chegando trazendo uma brisa agrádavel e notei surpreso quando depois de tomarmos um prolongado banho de rio,ela já sem a parte superior do biquine,subiu para o andar de cima,onde ficavam os quartos,com um olhar malicioso que me pareceu um convite.Subi a escada aos pulos.A diferença de linguas(sem trocadilho) não fêz a menor diferença, acho que até criou um tempêro extra.A noite foi longa.

Acordei sózinho na cama desarrumada quando os primeiros raios de sol penetravam pelas venezianas desenhando estranhas figuras na parede branca.Olhei para os lados e atônito achei que tudo não tivesse passado de um sonho e a frustração já me dominava quando ouvi um barulho que parecia de um helicóptero.Corri para a varanda e ainda deu tempo para vê-la, através do vidro da janela da nave, de óculos escuros e sem ao menos olhar para o lado. Desci rapidamente para a sala,coração acelerado. Da escada vi um pedaço de papel escrito junto a uma caneta.Poderia ser um bilhete talvez um telefone mas eram alguns versos rabiscados em inglês.

If I’m smart then I’II run away

But I’m not so guess I’II stay

Heaven forbid

I’II take my chance on a beautiful stranger.

Tentei mas não consegui traduzir.

Voltei para a cidade com aquêle gosto amargo de quarta feira de cinzas. O tempo foi passando e com mais interesse acompanhei sua trajetória de sucesso,suas turnês pelo mundo e seus casos amorosos.Em outubro daquele mesmo ano nasceu sua filha Lourdes Maria e ela incorporou uma postura mais mística diante da vida.O nome e a data de nascimento da menina me deixaram curioso mas procurei não “romancear”. Em 1999 depois de muitos sucessos ela gravou uma musica cujo título me chamou muita atenção e corri para buscar na estante aquele verso que eu tinha guardado. A música se chamava Beautiful Stranger e estava lá o verso que um amigo tinha traduzido para mim.

Se eu fosse inteligente, correria para bem longe

Mas não sou,então acho que vou ficar

No paraiso perdido

Vou me arriscar com um estranho bonito.

Essa é minha história .Omiti o nome da pessoa de próposito.Não na tentativa de fazer mistério ou joguinho embora eu tenha dado pistas claras da sua identidade, mas pela dúvida se o caso, de tão surreal, realmente aconteceu.

Hoje lembro pouco a não ser no dia 16 de agosto dia do seu aniversário.Muito mais por coincidir com o aniversário da pessoa com quem convivo hoje e que me olha com ironia e gozação quando relato a história daquela mulher que no verão de 1996,na Peninsula de Maraú, passou( ou não) como um cometa pela minha vida.

(*)-Arquiteto e comerciante/Ubaitaba

 


  1. CAMILA GOMES ANDRADE disse:

    Hahahahahaha! Muito bom, pai! Só você mesmo, que sabe, melhor do que ninguém, contar os “causos” da vida!