TRAUMATIZADA E MAL COMIDA (OU HOMEM PODE CHORAR)
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  • 06/11/2017 
  • Redação

Flávia Azevedo

Meu amigo disse que o homem ocidental está em crise. Eu já tinha percebido, mas ele sabe, mais do que eu, do que está falando. Sendo homem, deve entender melhor esse momento coletivo e, claro, se solidarizar. Porque há um sofrimento aí.  Senhores também têm seus dias ruins. E momentos péssimos quando são questionados:”senhores de quem, afinal”?

Por mais que já tenha passado da hora do “de igual pra igual”, há uma surpresa masculina diante desse movimento. Eles não estão acreditando. Vejo o desmonte de um modelo de homem e o quanto eles andam perdidos. Há ovos quebrados por toda parte.

Uma coisa é o discurso lá nos livros e palestras. Esse, até desce direitinho para os mais sofisticados. Outra coisa é o confronto diário, a convivência com essa “nova mulher”. Somos muitas e estamos em todo lugar.  Tá fácil pra eles? De jeito nenhum. Devo me importar? Talvez, sim.

(Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra)

Poderíamos acolher, com bastante carinho, os mortos e feridos desse embate, os baqueados do lado de lá. Bastava que fossem sinceros, eu acho. Só que, também no coletivo, perceber o sofrimento masculino demanda, de nós, suportar agressões.

Tem que aguentar a hostilidade, respirar fundo e ir dentro deles buscar motivos e explicações. Praticamente extrair a fórceps um “tá doendo” pra daí, quem sabe, começar um diálogo. E isso não é sempre seguro. Fora que não é todo dia que a gente tem saco.

Aquela frase miserável que diz “homem não chora” é sempre uma assombração. Terríveis repercussões. Sente uma dor e não pode chorar. Faz o que, então, se a dor precisa escoar? Vai pra onde, isso? Chore, pelamordedeus. É sempre melhor. Tão simples, seria. Mas é homem, né? Muito macho. Não dá.

Seria lindo escutar: “não sei transar com mulheres que mandam nos próprios corpos” ou “estou sendo cobrado nas tarefas domésticas e morro de preguiça” ou “estou detestando perder privilégios” ou, principalmente, “estou me sentindo permanentemente desrespeitado”.

(Nesse caso, sugiro que revejam a definição de “respeito” em seus dicionários)

Quanto assunto pra conversar! Quanto vinho na mesa, quantos encontros possíveis! Mas, não. Desqualifica mulheres, diz que é tudo “mimimi”, pergunta se a gente quer carregar saco de cimento e dão mais chilique ainda quando a gente responde: “Claro, que besteira! A gente carrega, sim”. Isso vai dar certo? Assim não vai. De jeito nenhum.

Tá complexo, amizades. Tem mulher que nem topa mais conversar. Se fechou em copas, enjoou, excluiu, não quer saber. Vou julgar? De jeito nenhum. Compreendo, até. Estão se bastando em seus mundos femininos particulares. Vivem bem. É uma solução.

Mas tem as que estão pra jogo, pra conversa, pra diálogo. Que não arredam das conquistas, mas topam uma interação. Sexual, afetiva, intelectual. Que podem ser assustadoras porque livres e insubmissas. Porque aprenderam a viver independentes do que “homens vão pensar”.

Só que veja: não viver em função, não se submeter, não obedecer, não estar de joelhos diante do homem… nada disso quer dizer não gostar. É possível amar sem ter o controle, saibam. É possível ser amado sem comandar. E isso é saudável, instigante. Pode ser doce. Pode ser legal.

Não há hierarquia entre gêneros. Não há razão, motivação biológica, nada que justifique. Definitivamente, não há. E se essa descoberta é cheia de prazer para quem sempre foi vista como menor, entendo que seja frustrante pra quem sempre esteve num andar superior. Era um grande engano e a mudança é pra melhor.

É preciso, no entanto, elaborar as reações. Algo como reaprender a falar. Menos gritos, menos ofensas, menos ódio. Mais verdade. Um pouco mais de real exposição. Dizer o que está sentindo. Aceitar diálogo. Falar das fragilidades que tá todo mundo vendo, mas – na maior cara de pau –  fingindo que não está.

Homens estão perdendo mulheres. De bobeira, por não saber lidar. Por medo, por susto. Porque na hora do “vamuvê”  preferem gritar “traumatizada! Mal comida” e acabar, assim, com qualquer discussão. É pouco, é vazio, não dá. Tá chata essa interação. Principalmente porque, acredite, por mais que o mundo tenha mudado (e mudou), entre outras coisas, mulheres sempre gostarão de ter alguém pra conversar.

*Flavia Azevedo é produtora e mãe de Leo  (Correio)