AFINAL, PRECISAMOS DE EDUCAÇÃO? ( Prof. Dr. Reginaldo de Souza Silva)
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  • 03/05/2015 
  • Redação

 

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Na manhã de 29/04/2015, quatro dias após o ocorrido, um programa de televisão noticiava que, estudantes do 6º ao 9º ano da Escola Municipal Caic Tancredo de Almeida Neves, Valparaíso, Goiás, depredaram a escola em protesto contra a direção que julgavam muito autoritária. Outras notícias acessadas, inclusive as televisionadas, tentam explicar o ocorrido tachando os estudantes de “vândalos”, “indisciplinados” e até mesmo, justificam a ação destes, concluindo que, não passam de usuários de drogas, ou seja, criando esteriótipos que tão bem a grande mídia no nosso país sabe fazer. Então, o ato dos estudantes foi o reflexo da educação a que estão sujeitos? Ou foi um protesto mesmo contra um uma educação autoritária?

As cenas que assistimos deste ato mostram estudantes quebrando cadeiras, janelas e portas. Em protesto, emitem gritos de revolta: “Tira a diretora, tira a diretora…”. As imagens nos remeteram a cenas do filme The Wall, lançado em 1982, produzido pelo diretor britânico Alan Parker e escrito pelo vocalista e baixista da banda britânica de rock Pink Floyd, Roger Waters. A cena do filme foi a que, estudantes, revoltados contra o autoritarismo de um professor que os negligencia e “expõe suas fraquezas”, quebram a escola e cantam: “Nós não precisamos de educação/ Nós não precisamos de controle mental/ De nenhum sarcasmo na sala de aula/ Professores, deixem as crianças em paz!/Ei, professor, deixem-nos, crianças, em paz!/ Afinal, isto é apenas mais um tijolo no muro/De um modo geral, você é apenas mais um tijolo no muro.” Essa passagem do filme remete à música Another brick in the wall (Mais um tijolo no muro), do álbum The Wall, Pink Floyd, que inspirou o filme.

Afinal, a educação em nosso país faz-nos refletir e nos dá condições para pensarmos como sujeitos autônomos, ou tolhe a capacidade criativa e reproduz as relações de poder da sociedade, na tentativa de naturalizar e implantar idéias em nossas mentes que levam simplesmente à morbidez e à apatia? Enfim, a instituição escolar viabiliza a expressão das idéias autênticas? E a educação é um meio de libertar-se ou apenas adestra os indivíduos para que corroborem com idéias de controle social? Afinal, precisamos de educação? Ou ela é, também, um maneira de adestramento?

Um olhar superficial sobre esses protestos verbais contra a autoridade, poderia nos levar a pensar que talvez aqueles estudantes da escola em Goiás sejam apenas “baderneiros” (assumindo a postura ideológica da Rede Globo de Televisão), que tudo não passa de sentimentos de revolta, rebeldia, traumas psicológicos e até mesmo que são efeitos do uso de drogas. Mas, na realidade, trata-se de uma atitude política, em que não há aceitação, por parte dos estudantes, da autoridade e da simples imposição de normas e regras, que os tornam meros fantoches da vontade alheia. Mesmo assim, a grande mídia insiste em tachar esses adolescentes e crianças de “rebeldes”, “baderneiros”, “vândalos”, entre outros.
 Enquanto  isso, no Estado do Paraná, com mais de 200 pessoas feridas, em sua maioria, professores, que protestam contra a votação, na Assembléia Legislativa do Estado do Paraná, do projeto de lei que promove mudanças do Regime Próprio da Previdência Social que reduz a contribuição do governo sobre as pensões pagas pelo Estado do Paraná aos funcionários públicos, são ferozmente atacadas por policiais (a mando do governo, diga-se de passagem), sendo alvos de bombas de gás lacrimogênio, espancamento e balas de tiro de borracha.  Com quem estavam as armas, com o Estado ou com a população?
Então, cabem as perguntas: será que a educação está nos tornando apenas mais um tijolo no muro? Ou será que a educação, ao reagirem, estudantes e professores, à arbitrariedade e à cassação de seus direitos (mesmo tachados de violentos, desordeiros e indisciplinados por uma mídia reacionária), está, na verdade, ajudando a construir outras possibilidades? Possibilidade essa que ajuda a se descolar do muro da fatalidade e da submissão.
Kelly Viana Gomes, Gildarte Viana Teixeira (discentes do curso de Física – UESB), Prof. Dr. Reginaldo de Souza Silva – DFCH/UESB