SOCIÓLOGO: “DIFICILMENTE PT RECUPERE IMAGEM A CURTO PRAZO”
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  • 20/07/2015 
  • Redação
Cientista político Antônio Lavareda diz que tucanos podem ser surpreendidos por terceira via na elei

Cientista político Antônio Lavareda diz que tucanos podem ser surpreendidos por terceira via na elei

Presidente do conselho do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), o sociólogo pernambucano Antonio Lavareda enxerga um horizonte pouco favorável para o governo de Dilma Rousseff, “mergulhado em crises simultâneas”, e para o PT. Ele diz que o partido do ex-presidente Lula, em razão da crise econômica e da operação Lava Jato, dificilmente terá condições de recuperar a sua imagem a curto prazo. Autor do livro “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais” (Editora Objetiva), Lavareda acha que seria interessante a entrada do PMDB no jogo eleitoral em 2018, depois de 20 anos do lançamento de Orestes Quércia (PMDB-SP) ao Planalto. Aos que apostam numa nova polarização PT-PSDB, avisa que há ambiente para o surgimento de uma terceira força política.

A presidente Dilma enfrenta uma situação adversa, com crise na economia, falta de diálogo com o Congresso, o julgamento das “pedaladas fiscais” pelo TCU e análise das contas de campanha pelo TSE, o que pode resultar na cassação do seu diploma. O País vive uma crise de governabilidade?
Na verdade, o Brasil atravessa um momento inédito de ocorrência em cascata de diversos fenômenos que caracterizam “crises”, no plural. A simultaneidade potencializa os efeitos nefastos de cada uma delas e faz com que a “crise geral”,  o agregado das  crises parcelares, seja muito maior que a soma das partes. Temos uma “crise econômica”, a principal delas, expressa por uma inflação perigosamente próxima aos dois dígitos, por uma retração do PIB projetada em -2% , e pelo perfil evolutivo do desemprego flertando com os 10%. O  seu impacto social adquirirá proporções catastróficas à medida que se aprofunde, destruindo empregos e implodindo os sonhos da classe média. Temos o que a ciência política classifica como uma “crise de conflito entre poderes do Estado”, que se manifesta no confronto sistemático entre as duas casas congressuais e o Executivo. Senado e Câmara Federal, mais esta do que aquele, comandados eficientemente por seus presidentes como há muito não se via, diariamente retaliam o governo por ações da PF e do Ministério Público  que o governo não teria as mínimas condições de evitar, armam tocaias nas votações do ajuste fiscal, esmeram-se em criar constrangimentos que são cada vez maiores, demonstrando cabalmente que a maioria governista no Congresso foi reduzida a uma peça de ficção, e que os presidentes das duas Casas não abrem mão de emparedar a presidente. É essa crise específica que é frequentemente chamada ” crise de governabilidade”. Temos, ainda, com contornos dramáticos, uma “crise de moralidade pública” traduzida em irrefreável indignação popular galvanizada pelo noticiário da Operação Lava Jato, que sequenciou  relativamente de perto o julgamento  do mensalão . E temos por fim, na esteira dessas outras, o agravamento de uma “crise de representação”, com a população ainda mais divorciada dos partidos, e que já mostrara sua face nas manifestações de meados de 2013.

O ex-presidente Lula disse que o PT e a presidente Dilma Rousseff estão abaixo do “volume morto”. Na sua opinião, estamos no fim de um ciclo iniciado há 12 anos com a chegada do PT ao Poder?
É bem possível. Dificilmente o partido terá condições de recuperar a sua imagem a curto prazo, danificada administrativamente pela crise econômica, e moralmente pela Operação Lava Jato. Esse período que tem estado no governo federal, uma dúzia de anos,  um pouco mais um pouco menos, é o máximo que os partidos no mundo democrático conseguem se manter no poder. São exceções. Os conservadores com Thatcher, os trabalhistas com Tony Blair, os republicanos com Reagan e George Bush, pai. São poucos episódios. Nos EUA, de 1952, quando começaram as modernas campanhas eleitorais, até os dias de hoje, somente uma vez um partido conseguiu se manter no poder por três mandatos. Foi no exemplo citado, entre 1980 e 1992. O PT provavelmente não desaparecerá, como alguns analistas apressados chegaram a vaticinar. E até poderá recuperar parte importante de sua força a médio prazo. Mas sofrerá uma forte inflexão para baixo nas urnas, ao menos nos dois próximos ciclos eleitorais

A oposição acusa o governo de estelionato eleitoral. Esconder o tamanho da crise econômica e depois tomar medidas duras, como a ajuste fiscal, foi o maior erro da presidente neste início de segundo mandato?
Na verdade, o estelionato começou na campanha eleitoral. A presidente já conhecia o impacto das medidas que precisaria adotar caso fosse reeleita. Ou seja, teria sido importante de alguma forma “vacinar” naquela oportunidade a mudança de rumo que seria obrigada a fazer. Mas nem ela nem o seu marketing fizeram isso. Por que? Talvez pelo acirramento da disputa – foi a menor distância entre dois candidatos no segundo turno jamais registrada – que pode ter gerado o medo de  “sincericídio”.

O Ibope apontou que apenas 9% dos eleitores consideram o governo ótimo ou bom. No Nordeste, principal reduto do PT, a situação não é diferente. Essa queda na popularidade do governo Dilma se deve mais à economia ou à Operação Lava Jato?
Como comentei antes, o processo impõe uma sinergia perversa entre essas crises. De todo modo, pode-se afirmar que o desastre na economia  termina sendo o principal fator de desgaste do seu governo. Não nos esqueçamos que a dimensão econômica é a principal fonte de origem dos sentimentos da população: medo de desemprego, decepção com as medidas de contenção, dificuldades no sonho da casa própria, frustração por ter que restringir o consumo, até o receio de partir para um casamento, a angústia de ter que abrir mão do plano de saúde, a ansiedade quanto  ao futuro dos filhos, etc.

Criar uma agenda alternativa à Lava Jato, como sugeriu Lula à Dilma, será capaz de fazer a presidente reverter, no curto prazo, os baixos índices  de aprovação de seu governo?
Tentar corrigir o grande desequilíbrio entre a predominância do noticiário negativo e as poucas notícias positivas exige, de fato, uma agenda alternativa. O presidente Lula conhece bem isso. Não por acaso ele pode ser classificado entre nossos ex-presidentes como o mais intuitivo e mercadológico deles. Mas ninguém opera milagres. Nem mesmo o melhor marketing, quando as circunstâncias são tão fortemente desfavoráveis. A avaliação da presidente pode até vir a se recuperar um pouco, dado que atingiu o patamar de apenas um dígito, mas ficará flutuando entre bandas muito baixas enquanto a economia não apresentar sinais vigorosos de recuperação. O que, convenhamos, não ocorrerá no curto prazo.

Como garantir a governabilidade nos próximos três anos, num cenário em que o Congresso Nacional, sob a batuta do PMDB,  é quem dita a pauta e o ritmo das votações?
A resposta a essa questão supõe saber como se comportarão até lá os líderes peemedebistas. O mandato da presidente poderá até  mesmo ser interrompido eventualmente antes disso. Os acontecimentos estão evoluindo com muita velocidade. Análise das contas da campanha no TSE; aprovação ou não das contas do governo pelo TCU inicialmente e depois pela Câmara; eventual pronunciamento no STF sobre o envolvimento do seu governo na Lava Jato. Tudo isso temperado por uma maior ou menor pressão online, nas redes sociais, e offline, nas ruas.

O vice-presidente Michel Temer e o presidente  da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), anunciaram que o partido deve romper a aliança com o PT e lançar candidato à Presidência da República em 2018. O PMDB, também implicado na Lava Jato, tem cacife para chegar à Presidência?
A implicação de algumas das lideranças do partido nessa operação pelos fatos divulgados até o momento não chega a se constituir num grande obstáculo para uma corrida eleitoral. É preciso esperar para vermos se haverá novas denúncias mais concretas ou não. O fato é que o partido aposta em voltar a disputar a Presidência mais de 20 anos após a última tentativa com Orestes Quércia, em 1994. Até aqui, o jogo que lhes deu muita força e espaços de poder nos estados e no Congresso foi o das coligações diversificadas regionalmente e a presença permanente do partido no governo federal, fosse qual fosse o partido titular da cadeira presidencial. Será muito interessante assistir a essa nova estratégia em ação.

Essa ameaça do PMDB tende a dar fôlego ao movimento pela volta de  Lula  ao Poder?
Não acredito que Lula volte à Presidência no curto prazo. A marcha da recuperação eleitoral do PT será bem mais lenta do que seus militantes desejariam.

E qual o peso de um Aécio Neves (PSDB-MG) em 2018? As pesquisas dizem que, se a eleição fosse hoje, o tucano derrotaria Lula.
O senador Aécio derrotaria Lula. O governador Alckmin derrotaria Lula. O senador Serra derrotaria Lula. Na verdade, as circunstâncias, que tantas vezes ajudaram Lula, agora são contundentemente prejudiciais a ele. Suas declarações sobre ” volume morto” demonstram que ele tem clareza quanto a isso. A investigação de um eventual envolvimento em tráfico de influência pelo MPF deteriorá ainda mais o prestígio do ex-presidente.

Nos últimos anos houve uma polarização entre o  PT e o PSDB. Mas neste cenário de crise, em que quase todos os partidos estão envolvidos em escândalos de corrupção, há espaço para o surgimento de uma terceira força política, como ocorreu com Marina Silva, que quase chegou ao segundo turno com Dilma na eleição de 2014?
Pergunta muito importante. Os tucanos que tanto se preocupam com Lula podem levar um susto na próxima eleição presidencial com a emergência ainda mais forte dessa terceira via. Lembremos que no ano passado quem retirou Marina do segundo turno, sendo substituída por Aécio, não foi o PSDB, mas sim a artilharia eletrônica petista. Caso contrário , a 3ª via teria chegado ao segundo turno e, quem sabe, ganhado a eleição.

O senhor fez análise de cenário do governo Fernando Henrique Cardoso, que na ocasião enfrentava crise econômica parecida com a atual, inclusive o “fora FHC” que pedia o seu impeachment. A partir dos elementos que viu, qual o paralelo que o senhor faz da crise no governo Dilma e qual deve ser o discurso, a postura, que ela, enquanto governante, deve adotar?
A grande diferença entre esses dois governos diz respeito a dois fatores. Primeiro, a relação entre o governo e o Congresso.  Ao contrário de Dilma, FHC quando estava com baixa popularidade desfrutava de um sólido apoio parlamentar. Sob o comando do PSDB, os aliados com poucas exceções deram a necessária sustentação ao governo. Em segundo lugar, nada ocorreu no segundo governo tucano parecido com a Lava Jato. Nem parecido. De certa forma, o apoio parlamentar  tinha ocorrido também na Nova República, durante o governo Sarney. A partir de final de 1986, com o Plano Cruzado 2 e o sentimento de frustração e revolta da população pelo que foi à época também considerado estelionato eleitoral, a popularidade do presidente caiu acentuadamente, chegando no ano da eleição, 1989, aos mesmos 9% atuais da presidente, mas Sarney contava com uma maioria sólida no Congresso; o processo Constituinte em andamento também o ajudava; e a primeira eleição presidencial direta depois da ditadura, marcada para 1989, de certa forma ajudava a alimentar a paciência da população. Quanto à prescrição de um discurso à presidente, não me sinto à vontade para fazê-lo. Não conheço “por dentro” o leque de alternativas de que dispõe. Soaria arrogante e seria desrespeitoso com ela e com seu marqueteiro.